Foi no seio esquerdo de Maria Antonieta que a taça de champagne conhecida como coupe, foi moldada.  Há quem diga que os seios em questão teriam sido os de Madame Pompadour, a amante do rei francês Luís XVI, mas, lendas à parte, o fato é que as taças bojudas, tão veneradas nos filmes e nos antigos salões, hoje se encontram esquecidas nas cristaleiras.

A aposentadoria da classuda coupe chegou na década de 60, quando as taças flûte (flauta), dominaram os momentos de celebração.  A justificativa para a substituição foi a de que o formato aberto da coupe dispersava mais rapidamente os aromas e o gás dos champagnes, diferente da nova taça com seu formato alongado, estreito e cilíndrico, que permitiam uma apreciação perfeita do show de borbulhas que o intenso perlage dos champagnes proporcionavam.

Mas 60 anos se passaram e o reinado da flûte corre sério risco de acabar. A polêmica com a taça começou há alguns anos, quando especialistas e produtores de champagnes perceberam que os espumosos perdiam em complexidade aromática e de sabores. Na verdade, o primeiro a levantar a questão foi Maximilian Riedel, CEO da prestigiada produtora de taças de cristais austríacos Riedel, que tomou como objetivo pessoal tornar a taça flûte obsoleta.

Num primeiro momento até poderia se pensar que seria mais uma estratégia de marketing de um empresário querendo ganhar algo a mais com a criação de um novo estilo de taça para o consumo de champagnes, mas a sua luta ganhou força quando importantes chefs de cave, de casas tradicionais, aderiram a sua causa e concordaram que a flûte não é o formato ideal para o consumo de champagnes, principalmente quando se trata dos cuvées especiais e os safrados.

Foi o caso de profissionais como Frédéric Panaïotis, chef de cave da Ruinart e Jean-Baptiste Lécaillon, da Louis Roederer, que enfatizaram a necessidade da aeração para os seus produtos mostrarem todo o seu potencial. Inclusive, Jean-Baptiste explicou que há 25 anos a Louis Roederer chegou a desenvolver taças próprias, no formato de tulipa, maiores que a flûte, para degustarem plenamente seu estilo de champagne. A Krug, Moët & Chandon e a Piper-Heidsieck também se uniram a Riedel para criar taças sob medida para degustarem seus espumosos.

A mudança também ganhou adeptos fora da França. Na Espanha, a Cavas Gramona, conhecida pelos fabulosos cavas envelhecidos, também sugere o uso de taças de vinho branco ao invés das flûtes para consumo dos seus complexos espumantes. Inclusive, na sala de degustação da Gramona, é utilizado taças Riedel para Chianti. Na Itália, o presidente da Ferrari Trento, Matteo Lunelli, também concorda que a taça alongada não consegue entregar o perfume e complexidade de um verdadeiro vinho espumante Trento DOC.

Apesar da mobilização ter começado no Velho Mundo, há enólogos e produtores do Novo Mundo que endossam o grupo que apoia o fim da flûte. Hugh Davies, enólogo da Schramsberg Vineyards, um dos grandes produtores de espumantes da Califórnia, concorda que apesar da taça cilíndrica ser amplamente utilizada, ela pode inibir a capacidade de explorar a fundo os aromas e sabores do vinho.

O Brasil não está de fora dessa novidade. O espumante produzido no Brasil possui uma taça diferenciada considerada ideal para a degustação dos espumantes. A taça, que tem o formato de uma pequena tulipa, foi apresentada em 2009, durante a 17ª Avaliação Nacional de Vinhos, no Rio Grande do Sul. O bojo largo e a boca levemente fechada auxiliam a liberação e a concentração dos aromas, favorecendo a concentração da efervescência. A capacidade da taça também foi pensada para evitar que o líquido permaneça muito tempo no cálice e acabe esquentando.

A essa altura, muitos devem estar se questionando se devem aposentar suas taças e investir no novo formato e qual seria o ideal diante de tantas opções diferentes. Apesar de várias Maisons terem criado um formato que acreditam valorizar o seu produto em particular, todos são unânimes ao sugerir a degustação dos champagnes e espumantes complexos em taças de vinho branco. E ainda, no caso de safras antigas e maduras, como exemplares de mais de 30 anos, o uso de taças de Pinot Noir.

Ainda vamos ver por muito tempo as taças flûte por aí. Existe uma demanda comercial para esse formato, principalmente por bares, restaurante e hoteis.  É uma mudança lenta e gradual de costumes. E é importante lembrar que essas taças ainda são as mais indicadas para os momentos de brindes e festas. O bom senso sempre vale mais do que qualquer técnica de degustação.  Há momentos de celebração e momentos de meditação. Essa máxima vale para o vinho também!

Fotos: Divulgação

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